segunda-feira, 29 de agosto de 2016

29 DE AGOSTO - ANTÓNIO ASSUNÇÃO

EFEMÉRIDEAntónio José Dias Assunção, actor português, nasceu em Paços de Ferreira no dia 29 de Agosto de 1945. Morreu em Nova Iorque, em 20 de Agosto de 1998, vítima de ataque cardíaco.
O grande público conhecia-o sobretudo através dos personagens que representou em séries televisivas, onde ficaram célebres o seu divertidíssimo ‘chefe de polícia’ em “Zé Gato” (1979), o seu ‘frade bonacheirão e comilão’ em “Caldo de Pedra” ou o seu ingénuo ‘detective Tó’ em “Duarte e Companhia” (1980/89), figuras que o popularizaram e que ajudaram a criar dele uma imagem de actor cómico.
Embora sendo verdade que era um humorista de enorme talento, não é menos verdade que foi igualmente um grande actor dramático, tendo desempenhado exemplarmente os mais marcantes papéis criados pelos maiores dramaturgos mundiais, como Bertolt Brecht, Federico García Lorca, William Shakespeare, Nicolau Gogol, Molière, Gil Vicente e Samuel Beckett.
Estreou-se no Teatro Experimental do Porto, aos dezanove anos, com a peça “O Avançado Centro Morreu ao Amanhecer” de Guzani, seguido de “Desperta e Canta” de Clifford Odets e de “O Barbeiro de Sevilha” de Beaumarchais.
Em 1966, foi para Paris, onde cumpriu um exílio de oito anos, escapando assim à Guerra Colonial. Na capital francesa conheceu o actor e encenador Carlos César, que havia criado o Teatro Oficina Português, com o qual representou mais de uma dezena de espectáculos que incomodaram seriamente os governos de Salazar e de Marcelo Caetano, como “A Excepção e a Regra”, “Felizmente Há Luar” ou “O Grande Fantoche Lusitano”. A polícia política (PIDE), omnipresente, fazia os seus relatórios…
Após a Revolução dos Cravos, que ele saudou intensamente em noites parisienses que lhe faziam recordar as febris manifestações do Maio de 1968, regressou a Portugal e envolveu-se na criação do Teatro de Animação de Setúbal, do qual foi um dos principais animadores durante o período inicial. Ali, sempre sob a direcção de Carlos César, representou alguns espectáculos memoráveis, como “A Maratona” de Claude Confortès, “Tartufo” de Molière ou “O Destino Morreu de Repente” de Alves Redol.
Em 1977, depois da última apresentação da peça “O 10º Turista” de Mendes de Carvalho, deixou Setúbal e rumou a Lisboa para integrar o Grupo de Teatro de Campolide, actual Companhia de Teatro de Almada.
Integrando o elenco da companhia dirigida por Joaquim Benite, onde se manteve durante mais de vinte anos, António Assunção assinou algumas das mais brilhantes criações de toda a sua carreira. É inesquecível o seu ‘tanoeiro’ de “1383” de Virgílio Martinho, como foi também o seu ‘chefe Valadares’ de “A Noite” de José Saramago, assim como os personagens concebidos para “O Santo Inquérito” de Dias Gomes, “Dona Rosita, a Solteira” de García Lorca ou “A Vida do Grande D. Quixote e do Gordo Sancho Pança” de António José da Silva (O Judeu), entre outros.
Entretanto, foram surgindo os mais diversos convites para participar em projectos televisivos, a par de um pequeníssimo conjunto de propostas para cinema. Coerente com os princípios da justiça, liberdade e igualdade que tomou como seus desde muito novo, António Assunção fez sempre questão de não ceder naquilo que considerava ser o essencial, sendo por isso muitas vezes ostracizado por alguns produtores e realizadores cinematográficos só porque era de esquerda, convicta e assumidamente de esquerda. Talvez por isso tenha feito muito pouco cinema.
Apesar de tudo, ainda conseguiu dar vida e corpo a personagens notáveis em filmes de Luís Filipe Rocha (“Amor e Dedinhos de Pé”), Fernando Lopes (“Crónica dos Bons Malandros”), Luís Galvão Teles (“A Vida é Bela”), António de Macedo (“Os Abismos da Meia Noite”), entre outras produções nacionais e estrangeiras, como “A Casa dos Espíritos”.
A viver no lisboeta Bairro Alto, era presença assídua nas últimas tertúlias do Largo da Misericórdia, onde costumava encontrar-se com o poeta Herberto Hélder e outros amigos – poetas, actores, jornalistas ou simples cidadãos apreciadores de um bom copo e dois dedos de conversa.
Um dia, disse que tinha viagem marcada com a família para Nova Iorque, aproveitando a pausa nas gravações de mais uma série da RTP. Nos seus planos estava a ida à Broadway, onde contava assistir a uma das peças em cena, coisa que só viria a conseguir ao apresentar-se como actor português, visto a lotação estar esgotada.
Como é tradição em alguns dos teatros da Broadway, os espectadores tiveram a oportunidade de subir ao palco no intervalo da peça. António Assunção não resistiu ao impulso do momento e subiu também até àquelas tábuas que são o sonho de muitos dos grandes actores norte-americanos. Enquanto se deslumbrava com o cenário e toda uma parafernália de elementos cénicos, o seu coração decidiu parar de bater, fazendo-o cair desamparado. Foram activados os serviços de emergência, tendo chegado pouco depois uma equipa de socorro. Enquanto os paramédicos faziam tudo para o trazer de volta à vida, o público começou a bater palmas e a gritar por ele, como que a pedir-lhe um último esforço. Mas de nada valeu. O actor faleceu naquela noite, a poucos dias de completar cinquenta e três anos de idade.

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