Autodidacta,
O’Neill foi um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa. É
nesta corrente que publica a sua primeira obra, o volume de colagens “A
Ampola Miraculosa”, mas o grupo rapidamente se desdobra e acaba. As
influências surrealistas permanecem visíveis nas obras dele, que além dos
livros de poesia incluem prosa, discos de poesia, traduções e antologias. Não
conseguindo viver apenas da sua arte, o autor alargou a sua acção à
publicidade. É da sua autoria o lema publicitário «Há mar e mar, há ir e
voltar». Foi várias vezes preso pela polícia política, a PIDE.
Da
burguesia lisboeta, Alexandre O’Neill nasceu no número 30 da Avenida Fontes
Pereira de Melo, uma das artérias principais da capital. Foi filho de José
António Pereira de Eça O’Neill de Bulhões, empregado bancário, e de sua esposa,
Maria da Glória Vahia de Barros de Castro.
Foi
igualmente neto paterno da escritora Maria O’Neill, a qual era sobrinha-bisneta
e primeira-prima-três-vezes-removida do 1º Visconde de Santa Mónica e
sobrinha-neta do 1º Barão de Sabroso e do 2º Barão de Sabroso.
A
sua irmã mais velha, Maria Amélia Vahia de Castro O’Neill de Bulhões, nascida
na Lourinhã, a 26 de Setembro de 1921, faleceu em Tomar, Santa Maria dos
Olivais, a 27 de Setembro de 2009, solteira e sem geração.
Em
1943, com 17 anos de idade, publicou os primeiros versos num jornal de
Amarante, o “Flor do Tâmega”. Apesar de ter recebido prémios literários
no Colégio Valsassina, esta actividade não foi particularmente
incentivada pela família, que almejava que Alexandre O’Neill se dedicasse mais
aos estudos e se formasse com um curso superior.
Datam
do ano de 1947 duas cartas de Alexandre O’Neill que demonstram o seu interesse
pelo surrealismo, dizendo numa delas (datada do mês de Outubro) possuir já os manifestos
de Breton e a Histoire du Surrealisme, de M. Nadeau. Nesse mesmo
ano, O’Neill, Mário Cesariny e Mário Domingues começam a fazer experiências a
nível da linguagem, na linha do surrealismo, sobretudo com os seus Cadáveres
Esquisitos e Diálogos Automáticos, que conduziam ao desmembramento
do sentido lógico dos textos e à pluralidade de sentidos.
Por
volta de 1948, O’Neill está na criação do Grupo Surrealista de Lisboa,
ao lado de Mário Cesariny, José-Augusto França, António Domingues, Fernando
Azevedo, Moniz Pereira, António Pedro e Marcelino Vespeira. As primeiras
reuniões ocorreram na Pastelaria Mexicana, na Praça de Londres.
As
posições antineorealistas eram frontais e provocatórias, tal como as
atitudes contra o regime: em Abril, o Grupo retira a sua colaboração da III
Exposição Geral de Artes Plásticas, por recusar a censura prévia que a
comissão organizadora decidira impor. Com a saída de Mário Cesariny, que entrou
em rotura com o Grupo, em Agosto de 1948, o grupo cindiu-se, dando
origem ao Grupo Surrealista Dissidente, onde, além do próprio Cesariny,
participavam António Maria Lisboa e Pedro Oom.
Em
1949, tiveram lugar as principais manifestações do movimento surrealista em
Portugal, como a Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa (em Janeiro),
onde expuseram Alexandre O’Neill, António Dacosta, António Pedro, Fernando de
Azevedo, João Moniz Pereira, José-Augusto França e Vespeira. Nessa ocasião,
Alexandre O’Neill publicou “A Ampola Miraculosa” como um dos primeiros
números dos Cadernos Surrealistas. A obra, constituída por 15 imagens e
respectivas legendas, sem nenhum nexo lógico entre a imagem e legenda, poderá
ser considerada paradigmática do surrealismo português.
Depois
de uma fase de ataques pessoais entre os dois grupos surrealistas (1950/1952) e
a extinção de ambos os grupos, o surrealismo continuou a manifestar-se na
produção individual de alguns autores, incluindo o próprio Alexandre O’Neill.
Em 1951, no “Pequeno Aviso do Autor ao Leitor”, inserido em Tempo de
Fantasmas, ele demarcou-se como surrealista. Nessa mesma obra, sobretudo na
primeira parte, Exercícios de Estilo (1947/1949), a influência deste
corrente manifesta-se em poemas como “Diálogos Falhados”, “Inventário”
ou “A Central das Frases” e na insistência em motivos comuns a muitos
poetas surrealistas, como a bicicleta e a máquina de costura.
Neste
primeiro livro de poesia inclui o poema que o tornou célebre, “Um Adeus
Português”, originado num episódio biográfico que o próprio viria a contar,
muitos anos mais tarde: no início de 1950, estivera em Lisboa Nora Mitrani,
enviada do Surrealismo francês para fazer uma conferência. Conheceu
O’Neill e apaixonaram-se. Meses mais tarde, querendo juntar-se-lhe em Paris,
O’Neill foi chamado à PIDE e interrogado. Por pressão de uma pessoa da
família, foi-lhe negado o passaporte. Coagido a ficar em Portugal, não voltaria
a ver Nora Mitrani.
Não
foi, de resto, a única vez que Alexandre O’Neill foi confrontado com a polícia
política. Em 1953, esteve preso vinte e um dias no Estabelecimento Prisional
de Caxias, por ter ido esperar Maria Lamas, regressada do Congresso
Mundial da Paz em Viena. A partir desta data, passou a ser vigiado pela PIDE.
No entanto, sendo um oposicionista, não militou em nenhum partido político, nem
durante o Estado Novo, nem a seguir ao 25 de Abril – conhece -se-lhe
uma breve ligação ao MUD juvenil, na altura em que abandona o Grupo
Surrealista de Lisboa. A partir desta época, O’Neill foi-se distanciando de
grupos ou tertúlias, demasiado irónico e cioso do seu individualismo para se
envolver seriamente em qualquer militância partidária.
Em
1958, com a edição de “No Reino da Dinamarca”, Alexandre O’Neill viu-se
reconhecido como poeta. Na década de 1960, provavelmente a mais
produtiva literariamente, foi publicando livros de poesia, antologias de outros
poetas e traduções.
A
poesia de Alexandre O’Neill concilia uma atitude de vanguarda, (surrealismo e
experiências próximas do concretismo) - que se manifesta no carácter lúdico do
seu jogo com as palavras, no seu bestiário, que evidencia o lado surreal do
real, ou nos típicos «inventários» surrealistas - com a influência da
tradição literária (de autores como Nicolau Tolentino e o abade de Jazente, por
exemplo).
Os
seus textos caracterizam-se por uma intensa sátira a Portugal e aos
portugueses, destruindo a imagem de um proletariado heróico criada pelo neorealismo,
a que contrapõe a vida mesquinha, a dor do quotidiano, vista no entanto sem
dramatismos, ironicamente, numa alternância entre a constatação do absurdo da
vida e o humor como única forma de se lhe opor.
Temas
como a solidão, o amor, o sonho, a passagem do tempo ou a morte, conduzem ao
medo (veja-se “O Poema Pouco Original do Medo”, com a sua figuração
simbólica do rato) e/ou à revolta, de que o homem só poderá libertar-se através
do humor, contrabalançado por vezes por um tom discretamente sentimental,
revelador de um certo desespero perante o marasmo do país - «meu remorso,
meu remorso de todos nós». Este humor é, muitas vezes, manifestado numa
linguagem que parodia discursos estereotipados, como os discursos oficiais ou
publicitários, ou que reflecte a própria organização social, pela integração
nela operada do calão, da gíria, de lugares-comuns pequeno-burgueses, de
onomatopeias ou de neologismos inventados pelo autor.
Encontra-se
colaboração da sua autoria no semanário “Mundo Literário” (1946/1948) e
na revista “Litoral” (1944/1945).
Alexandre
O’Neill, apesar de nunca ter sido um escritor profissional, viveu sempre da sua
escrita ou de trabalhos relacionados com livros. Em 1946, tornou-se
escriturário, na Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio.
Permaneceu neste emprego até 1952. A partir de 1957, começou a escrever para os
jornais, primeiro esporadicamente, depois, nas décadas seguintes, assinando
colunas regulares no “Diário de Lisboa”, em “A Capital” e, nos
anos 1980, no “Jornal de Letras”, escrevendo indiferentemente
prosa e poesia, que reeditava mais tarde em livro, à maneira dos folhetinistas
do século XIX.
Em
1959, iniciou-se como redactor de publicidade, actividade que se tornaria
definitivamente o seu ganha-pão. Ficaram famosos no meio alguns slôganes
publicitários da sua autoria, e um houve que se converteu em provérbio: «Há
mar e mar, há ir e voltar». Tinha entretanto abandonado definitivamente a
casa dos pais, casando a 27 de Dezembro de 1957 com Noémia Delgado, de quem
teve um filho, Alexandre Delgado O’Neill, nascido a Dezembro de 1959,
fotógrafo, que viria a morrer solteiro e sem geração em Boston, Condado de
Suffolk, Massachusetts, em Janeiro de 1993. Alexandre O’Neill apenas se
divorciou dela algum tempo antes do seu segundo casamento, em Janeiro de 1971.
Nesta época, instalou-se na zona do Jardim do Príncipe Real, bairro lisboeta
onde haveria de decorrer grande parte da sua vida, e que levaria para a sua
escrita. Neste bairro, encontraria Pamela Ineichen, com quem manteve uma
relação amorosa durante a década de 1960. Mais tarde, a 4 de Agosto de
1971, casará em Lisboa com Teresa Patrício Gouveia, mãe do seu segundo filho,
Afonso Gouveia O’Neill, nascido a 28 de Maio de 1976, solteiro e sem geração.
Fez
ainda parte da redacção da revista “Almanaque” (1959/1961), publicação
arrojada com grafismo de Sebastião Rodrigues onde colaboravam, entre outros,
José Cardoso Pires, Luís de Sttau Monteiro, Augusto Abelaira e João Abel Manta.
A
sua atracção por outros meios de comunicação, que não a palavra escrita, é
testemunhada pela letra do fado “Gaivota” destinada à voz de Amália
Rodrigues, com música de Alain Oulman, tal como a colaboração, nos anos 1970,
em programas televisivos (fora, aliás, crítico de televisão sob o pseudónimo de
A. Jazente), ou em guiões de filmes e em peças de teatro. Em 1982,
recebeu o prémio da Associação de Críticos Literários.
Mas
a doença começava a atormentá-lo. Em 1976, sofre um ataque cardíaco, que o
poeta admitiu dever-se à vida desregrada que sempre tinha sido a sua, e que,
apesar de algum esforço em contrário, continuou a ser. No início dos anos 1980,
já divorciado de Teresa Patrício Gouveia desde 20 de Fevereiro de 1981,
repartia o seu tempo entre a casa da Rua da Escola Politécnica e a vila de
Constância. Em 1984, sofreu um acidente vascular cerebral, antecipatório
daquele que, em Abril de 1986, o levaria ao internamento prolongado no
hospital.
Alexandre
O’Neill faleceu em Lisboa em Agosto de 1986, aos 61 anos. Está sepultado no Cemitério
de Benfica, na mesma cidade.
Em
10 de Junho de 1990, a título póstumo, foi feito Grande-Oficial da Antiga,
Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, do Mérito
Científico, Literário e Artístico.
A
Biblioteca Alexandre O’Neill, em Constância, alberga, por doação do
próprio escritor, parte do seu espólio. Ali, pode-se ler os livros que
pertenceram a O’Neill, muitos deles com anotações suas ou dedicatórias dos
autores.
