Quase
sempre citado como o «maior cineasta brasileiro de todos os tempos», é
conhecido por ter sido um dos pioneiros do cinema brasileiro, produzindo filmes
como “Brasa Dormida” (1928), “Sangue Mineiro” (1929) e “Ganga
Bruta” (1933), hoje consideradas obras-primas da sétima arte.
Autor
do mais significativo ciclo regional do cinema brasileiro, o Ciclo de
Cataguases, Mauro foi um dos precursores do movimento cinematográfico
brasileiro Cinema Novo, propagado no Brasil entre os anos 1960 e 1970.
Apesar de não ter feito carreira internacional, devido às limitações da época,
foi homenageado no Festival de Cannes, em França, como um dos cineastas
mais importantes do século XX.
Filho
da mineira culta e poliglota Teresa Duarte e do imigrante italiano Gaetano
Mauro nasceu dois anos depois da histórica sessão cinematográfica promovida
pelos irmãos Lumière, em Paris. Quando criança, mudou-se com a família para
Cataguases. Desde cedo, dedicou-se à música, tocando o violino e o bandolim.
Interessado
também em mecânica, ingressou no curso de Engenharia em Belo Horizonte,
que abandonou um ano depois para voltar a Cataguases. Como as linhas de
transmissão de electricidade chegavam à região, trabalhou na instalação de
energia eléctrica nas fazendas.
Foi
para o Rio de Janeiro em 1916, onde trabalhou como electricista e foi
funcionário da empresa Light and Power, que explorava os serviços de
bondes na cidade. Mauro era um dos responsáveis pela manutenção da maquinaria
desses veículos. Retorna a Cataguases em 1920, onde se casou com Maria Vilela
de Almeida (Dona Bebé), com quem permaneceria casado pelo resto da vida.
Em
1923, passou a interessar-se por fotografia. Adquiriu uma câmara Kodak
de Pedro Comello (pai da actriz Eva Nill), imigrante italiano de quem se
tornaria amigo até se desentenderem. Ambos compartilhavam uma paixão pelo
cinema, principalmente pelos filmes americanos de aventuras.
Em
1925, Mauro e Comello compraram uma câmara cinematográfica de 9,5 mm, marca Pathé,
com a qual Mauro filmou uma curta-metragem cómica de apenas 5 minutos de
duração. Mostraram esse filme a comerciantes locais, tentando convencê-los a
investir numa companhia produtora de filmes em Cataguases. Com o apoio
financeiro de Homero Domingues, compraram uma câmara de 35 mm e centenas de
metros de filme. Mas o filme que resolveram fazer ficou inacabado.
Ainda
em 1925, com a participação do negociante Agenor Cortes de Barros, fundaram em
Cataguases a Phebo Sul América. Em 1926, realizam “Na Primavera da
Vida” e em seguida “Thesouro Perdido”, um filme nos moldes dos
filmes de aventuras americanos, com muitas e complicadas cenas de acção. Foi
premiado como o Melhor filme brasileiro de 1927. Este filme contou com a
única participação nas telas da mulher de Mauro, com o nome artístico de Lola
Lys. Com o sucesso de “Thesouro Perdido”, Mauro pôde ampliar a sua
produtora, rebaptizada de Phebo Brasil, e desenvolver filmes de acordo
com a sua visão pessoal. O seu trabalho seguinte, “Brasa Dormida”, é uma
bem-sucedida mistura de aventura e romance, com excelente aproveitamento dos
cenários naturais, em que não falta uma excitante (para os padrões da época)
cena erótica. Lançada em 1929, foi distribuída para todo o país.
A
sua longa-metragem seguinte, a sua última para a Phebo, “Sangue
Mineiro” é considerada a sua obra-prima em Cataguases. Lançado em Julho de
1929, percorreu todo o país com sucesso de crítica e público. Aqui ele deixa de
lado a aventura e faz um filme intimista, em que os únicos conflitos são os do
coração.
Mauro
manteve estreitas ligações com poetas e escritores modernistas da época,
especialmente com os integrantes do chamado Movimento Verde. Criado em
Cataguases após a Semana de Arte Moderna de 1922, tinha como integrantes
Rosário Fusco, Francisco Inácio Peixoto, Ascânio Lopes e Guilhermino César,
entre outros, que eram responsáveis pela edição da “Revista Verde”, um
dos marcos da literatura modernista brasileira.
Com
o surgimento da Cinédia, em 1929 ele vai para o Rio de Janeiro e começa
a trabalhar com Adhemar Gonzaga, dirigindo “Lábios sem beijos”,
mostrando domínio na técnica do cinema falado.
O
sucesso desses filmes tornou a Cinédia o estúdio mais importante da
época. Em 1931, foi lançado “Mulher”, na qual Mauro actuou como câmara,
cabendo a direcção a Octavio Gabus Mendes. O seu filme seguinte, “Ganga
Bruta”, teve dificuldades na sua realização que se prolongaram de 1931 a
1933. Era um filme de estrutura narrativa revolucionária para a época, com flashbacks
e cortes rápidos. Depois de dirigir a “Voz do Carnaval” (1933), o seu
primeiro musical considerado um semidocumentário, utilizando cenas reais,
gravadas ao vivo e mescladas com cenas de estúdio, troca a Cinédia pela Brasil
Vita Filmes em 1934, um estúdio fundado pela actriz Carmen Santos, estrela
de vários filmes de Mauro. Na nova casa, fez “Favela dos Meus Amores”
(1935), semidocumentário com imagens de um morro carioca, com a participação de
uma escola de samba, a Portela, e “Cidade Mulher” (1936). Eis o
que Ana Paula Galdini pesquisou e disse: «Década de 30, cinematografia mais
constante. Humberto Mauro destaca-se».
Em
1936, a carreira de Humberto sofreu mudança, ele se rendeu ao documentário. A
pedido do então, ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, o
professor Edgar Roquete Pinto criou o Instituto Nacional de Cinema Educativo
(INCE) e convidou Humberto Mauro. Filmou mais de 300 documentários de
curta, entre 1936 e 1964: “Dia da Pátria”, “Lição de Taxidermia”,
“Vacina contra Raiva”, “A Velha a Fiar” e “Higiene Doméstica”,
e a série “As Brasilianas”, na qual registrou exibições de músicas
folclóricas.
Enquanto
trabalhou no INCE, Mauro dirigiu apenas três longas metragens: “O
Descobrimento do Brasil” (1937), com música de Villa-Lobos, “Argila”
(1940) e “Canto da Saudade” (1952), onde também trabalha como actor, num
papel secundário.
Durante
os seus últimos anos de vida, Mauro foi a inspiração principal da geração do Cinema
Novo. Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha eram seus admiradores
declarados. Mesmo sem dirigir, deu colaboração informal a cineastas como o
próprio Nelson, para quem escreveu os diálogos em tupi de “Como Era
Gostoso o Meu Francês”. Afastado do cinema desde 1974, quando fez a
curta-metragem “Carro de Bois”, passou a viver no seu sítio Rancho
Alegre, em Volta Grande, onde morreu, aos 86 anos, quase que completamente
cego, após uma forte pneumonia.
Humberto
Mauro é tio-avô do actor André Di Mauro e da actriz Cláudia Mauro.


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