quinta-feira, 5 de novembro de 2026

5 DE NOVEMBRO - HUMBERTO MAURO

EFEMÉRIDE - Humberto Duarte Mauro, cineasta, escritor, académico, músico, actor, produtor, pintor, artista plástico, político, crítico, guionista e activista brasileiro, morreu em Volta Grande, MG, no dia 5 de Novembro de 1983. Nascera em Volta Grande, em 30 de Abril de 1897.

Quase sempre citado como o «maior cineasta brasileiro de todos os tempos», é conhecido por ter sido um dos pioneiros do cinema brasileiro, produzindo filmes como “Brasa Dormida” (1928), “Sangue Mineiro” (1929) e “Ganga Bruta” (1933), hoje consideradas obras-primas da sétima arte.

Autor do mais significativo ciclo regional do cinema brasileiro, o Ciclo de Cataguases, Mauro foi um dos precursores do movimento cinematográfico brasileiro Cinema Novo, propagado no Brasil entre os anos 1960 e 1970. Apesar de não ter feito carreira internacional, devido às limitações da época, foi homenageado no Festival de Cannes, em França, como um dos cineastas mais importantes do século XX.

Filho da mineira culta e poliglota Teresa Duarte e do imigrante italiano Gaetano Mauro nasceu dois anos depois da histórica sessão cinematográfica promovida pelos irmãos Lumière, em Paris. Quando criança, mudou-se com a família para Cataguases. Desde cedo, dedicou-se à música, tocando o violino e o bandolim.

Interessado também em mecânica, ingressou no curso de Engenharia em Belo Horizonte, que abandonou um ano depois para voltar a Cataguases. Como as linhas de transmissão de electricidade chegavam à região, trabalhou na instalação de energia eléctrica nas fazendas.

Foi para o Rio de Janeiro em 1916, onde trabalhou como electricista e foi funcionário da empresa Light and Power, que explorava os serviços de bondes na cidade. Mauro era um dos responsáveis pela manutenção da maquinaria desses veículos. Retorna a Cataguases em 1920, onde se casou com Maria Vilela de Almeida (Dona Bebé), com quem permaneceria casado pelo resto da vida.

Em 1923, passou a interessar-se por fotografia. Adquiriu uma câmara Kodak de Pedro Comello (pai da actriz Eva Nill), imigrante italiano de quem se tornaria amigo até se desentenderem. Ambos compartilhavam uma paixão pelo cinema, principalmente pelos filmes americanos de aventuras.

Em 1925, Mauro e Comello compraram uma câmara cinematográfica de 9,5 mm, marca Pathé, com a qual Mauro filmou uma curta-metragem cómica de apenas 5 minutos de duração. Mostraram esse filme a comerciantes locais, tentando convencê-los a investir numa companhia produtora de filmes em Cataguases. Com o apoio financeiro de Homero Domingues, compraram uma câmara de 35 mm e centenas de metros de filme. Mas o filme que resolveram fazer ficou inacabado.

Ainda em 1925, com a participação do negociante Agenor Cortes de Barros, fundaram em Cataguases a Phebo Sul América. Em 1926, realizam “Na Primavera da Vida” e em seguida “Thesouro Perdido”, um filme nos moldes dos filmes de aventuras americanos, com muitas e complicadas cenas de acção. Foi premiado como o Melhor filme brasileiro de 1927. Este filme contou com a única participação nas telas da mulher de Mauro, com o nome artístico de Lola Lys. Com o sucesso de “Thesouro Perdido”, Mauro pôde ampliar a sua produtora, rebaptizada de Phebo Brasil, e desenvolver filmes de acordo com a sua visão pessoal. O seu trabalho seguinte, “Brasa Dormida”, é uma bem-sucedida mistura de aventura e romance, com excelente aproveitamento dos cenários naturais, em que não falta uma excitante (para os padrões da época) cena erótica. Lançada em 1929, foi distribuída para todo o país.

A sua longa-metragem seguinte, a sua última para a Phebo, “Sangue Mineiro” é considerada a sua obra-prima em Cataguases. Lançado em Julho de 1929, percorreu todo o país com sucesso de crítica e público. Aqui ele deixa de lado a aventura e faz um filme intimista, em que os únicos conflitos são os do coração.

Mauro manteve estreitas ligações com poetas e escritores modernistas da época, especialmente com os integrantes do chamado Movimento Verde. Criado em Cataguases após a Semana de Arte Moderna de 1922, tinha como integrantes Rosário Fusco, Francisco Inácio Peixoto, Ascânio Lopes e Guilhermino César, entre outros, que eram responsáveis pela edição da “Revista Verde”, um dos marcos da literatura modernista brasileira.

Com o surgimento da Cinédia, em 1929 ele vai para o Rio de Janeiro e começa a trabalhar com Adhemar Gonzaga, dirigindo “Lábios sem beijos”, mostrando domínio na técnica do cinema falado.

O sucesso desses filmes tornou a Cinédia o estúdio mais importante da época. Em 1931, foi lançado “Mulher”, na qual Mauro actuou como câmara, cabendo a direcção a Octavio Gabus Mendes. O seu filme seguinte, “Ganga Bruta”, teve dificuldades na sua realização que se prolongaram de 1931 a 1933. Era um filme de estrutura narrativa revolucionária para a época, com flashbacks e cortes rápidos. Depois de dirigir a “Voz do Carnaval” (1933), o seu primeiro musical considerado um semidocumentário, utilizando cenas reais, gravadas ao vivo e mescladas com cenas de estúdio, troca a Cinédia pela Brasil Vita Filmes em 1934, um estúdio fundado pela actriz Carmen Santos, estrela de vários filmes de Mauro. Na nova casa, fez “Favela dos Meus Amores” (1935), semidocumentário com imagens de um morro carioca, com a participação de uma escola de samba, a Portela, e “Cidade Mulher” (1936). Eis o que Ana Paula Galdini pesquisou e disse: «Década de 30, cinematografia mais constante. Humberto Mauro destaca-se».

Em 1936, a carreira de Humberto sofreu mudança, ele se rendeu ao documentário. A pedido do então, ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, o professor Edgar Roquete Pinto criou o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE) e convidou Humberto Mauro. Filmou mais de 300 documentários de curta, entre 1936 e 1964: “Dia da Pátria”, “Lição de Taxidermia”, “Vacina contra Raiva”, “A Velha a Fiar” e “Higiene Doméstica”, e a série “As Brasilianas”, na qual registrou exibições de músicas folclóricas.

Enquanto trabalhou no INCE, Mauro dirigiu apenas três longas metragens: “O Descobrimento do Brasil” (1937), com música de Villa-Lobos, “Argila” (1940) e “Canto da Saudade” (1952), onde também trabalha como actor, num papel secundário.

Durante os seus últimos anos de vida, Mauro foi a inspiração principal da geração do Cinema Novo. Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha eram seus admiradores declarados. Mesmo sem dirigir, deu colaboração informal a cineastas como o próprio Nelson, para quem escreveu os diálogos em tupi de “Como Era Gostoso o Meu Francês”. Afastado do cinema desde 1974, quando fez a curta-metragem “Carro de Bois”, passou a viver no seu sítio Rancho Alegre, em Volta Grande, onde morreu, aos 86 anos, quase que completamente cego, após uma forte pneumonia.

Humberto Mauro é tio-avô do actor André Di Mauro e da actriz Cláudia Mauro.

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