quarta-feira, 16 de abril de 2014

MEMÓRIA DE UMA MADRUGADA




Saí de casa às quatro da manhã e dirigi-me para o aeroporto. Destino previsto – Amesterdão. Destino inesperado – Portugal e a Liberdade reconquistada.
- Não pode passar! - Disse amavelmente um soldado.
- Mas estou atrasada! E tenho de picar o cartão! – Ripostou a colega da TAP que tentava passar...
- A tropa justificará tudo!
Assim, sem esperar, fiquei a saber que algo se passava em Lisboa. Regressei a casa, já com a rádio ligada e numa ansiedade extrema. Subi as escadas a correr, acordei a família e liguei a telefonia. Cada notícia era escutada e sorvida numa tentativa de descodificação. Um golpe? Mas de quem? Kaúlza? Spínola? Um movimento de oficiais? Quem? A informação disponível era escassa. Para cada palavra ouvida na rádio, tentava descobrir algo mais.
Quando me pareceu já não haver dúvidas, contrariando os pedidos feitos pela rádio, saí para a rua. O futuro, há tanto desejado, esperava-me. A luz aparecia ao fundo do túnel. Saí para a rua como agora, 40 anos volvidos. Sorriso nos lábios e um cravo ao peito.
Relembrei as viagens até Paris. As peregrinações à Editora Maspero, onde passava parte dos tempos livres. Lendo títulos, folheando livros, comprando jornais... Todas as oposições do mundo ali estavam representadas. Lá comprei o “Avante” da clandestinidade, publicações maoistas, livros soviéticos, livros cubanos, alguns brasileiros, outros portugueses... Que interessavam os pormenores se o essencial nos unia? A fartura, no entanto, era tanta, que nos acontecia olhar desconfiados para o cidadão do lado que também folheava publicações em português. Sempre a sombra omnipresente da polícia política!
Tomei conhecimento nas décadas 1950/70 com nomes aqui proibidos. Ao acaso lembro Jorge Amado (a sua Baía e o seu Povo), Che Guevara (e a sua epopeia nas montanhas de Cuba e da Bolívia), Dolores Ibarruri (a tal que preferia morrer de pé do que viver de joelhos), Régis Debray (filósofo, escritor e, muitos anos mais tarde, conselheiro de Mitterrand), Frantz Fanon (o defensor dos oprimidos), Mário Soares, Raul Rego, José Magalhães Godinho, Salgado Zenha (homens publicados sobretudo em tempo de eleições), Aquilino Ribeiro (mestre da língua portuguesa, odiado por Salazar), Soeiro Pereira Gomes (o escritor do Povo), Urbano Tavares Rodrigues e tantos, tantos outros. Claro que também ia lendo os clássicos... Marx, Engels, Lenine, Cunhal... O “Cavaleiro da Esperança”, com indicação de ter sido publicado em Paris mas, afinal, impresso clandestinamente em Lisboa, como me confessaria – anos mais tarde – o próprio autor Jorge Amado.
Relembrei os filmes que via lá fora e que em Lisboa não podia ver. Às vezes por motivos bem ridículos... Mas sempre «a bem da nação, da moral e dos valores ocidentais». Conseguia ver outros filmes, mas de tal forma mutilados, nos diálogos ou nas imagens, que constituíam verdadeiros atentados à cultura.
Relembrei alguns cantores “malditos”: O Luís Cília (das festas em Paris, a favor de trabalhadores em luta), o Letria (sempre pronto a colaborar em sessões organizadas por gente progressista), o Adriano (tão cedo desaparecido), o Zeca Afonso (o tal que utilizava todas as oportunidades que lhe davam para ser o porta-voz dos oprimidos). E tantos outros.
Relembrei as eleições de Humberto Delgado e a colecção de recortes, revistas e jornais estrangeiros, que então fiz. Tempos depois, mal recebi um aviso da polícia, afinal referente apenas a um acidente de que fora testemunha, queimei todo o material. Ao que obrigava o receio! – Aquele mesmo material, como tempos depois tudo o que se referia ao sequestro do Santa Maria ou às guerras do ultramar, servira para reuniões até às tantas onde, com vários amigos, se procedia à respectiva leitura e se faziam comentários.
Relembrei as notícias que não podia ler, ou que lia deturpadas. O suicídio que não passava de um acidente ou de uma “morte natural”. Como podia ele ser justificado se tudo era um paraíso? – O desemprego – esse não existia! Pois pudera! – Os desempregados emigravam... Mas porque se emigraria se cá se vivia tão bem? – A guerra do ultramar? – Mera propaganda comunista. Não havia problemas! – Os soldados embarcavam a cantar, enviavam mensagens às famílias em todos os Natais e, quando regressavam, eram recebidos festivamente pelas bandas das suas terras. Não regressavam todos? Não regressavam inteiros? Caluda! Portugal tinha de ignorar. As famílias que sofressem individualmente no recato dos seus lares.
Éramos um Povo castrado. Uns que sofriam no espírito. Não podiam (ou podiam dificilmente) saber mais do que aquilo que lhes era debitado pelos órgãos de comunicação. Outros sofriam no corpo. Heroicamente resistiam. Hipotecavam as suas próprias vidas. Outros, pior ainda, aliavam as duas espécies de sofrimento – o físico e o moral. Outros ainda, por cá passavam sem dar por isso, ignorantes, distraídos – propositadamente ou sem querer. Eram as raízes criadas pelo próprio sistema. Raízes que se aquietavam na tranquilidade de nada fazer para que tudo ficasse na mesma. Antes assim que pior. Os outros que pensassem por eles. Finalmente, suponho que uma minoria, aqueles que seriam os verdadeiros fascistas, os homens do regime, os homens do capital, os homens sem rosto nem pátria. Tanto podiam explorar aqui como noutro local, com dinheiro e cúmplices em todo o lado, com todo o tempo para esperar... Anos mais tarde, voltariam à tona de água para pedir as indemnizações «devidas por um estado democrático». A palavra democracia deveria, no entanto, ser considerada blasfémia em semelhantes bocas.
Todos estes acontecimentos e considerações percorrem em tropel a minha memória, memória de uma madrugada em que tudo mudou.

Gabriel de Sousa

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