segunda-feira, 31 de maio de 2004

POEMAS COM HISTÓRIA:

Escrevi este poema acerca da Liberdade no período eufórico que se seguiu ao 25 de Abril. Trabalhava numa companhia francesa em que o ambiente de trabalho era óptimo. Os representantes da entidade patronal exultavam quase tanto como nós com o fim da ditadura. Recordavam-se de momentos idênticos quando foram libertados da ocupação alemã.
O meu Chefe Administrativo (contabilidade e pessoal) tinha sido sindicalista. Mostrei-lhe o que escrevera. Entusiasmou-se e logo ali se ofereceu para traduzir para francês. Eu disse-lhe que iria publicar o poema e a tradução. Ele aquiesceu, mas pediu-me para não utilizar o seu nome. Disse-me que em certos meios (companhia e sindicatos) o facto dele estar ligado à Poesia poderia ser mal visto. Ele mesmo já tinha obra publicada, mas assinada com pseudónimo. Assim nasceu a tradução de «Jacques Lami»...
Recebi dele muita compreensão e vários ensinamentos a nível sindical. O que não seria tarefa fácil para ele, apanhado entre dois fogos: por um lado a entidade patronal, por outro os trabalhadores. Anos mais tarde também eu me questionei sobre esta dupla função de Quadro e de Sindicalista. Julgo, também eu, ter cumprido os meus deveres e ter ganho seguramente uma maior noção de responsabilidades e de bom senso.
- Obrigado Jacques Robert! É este o seu verdadeiro nome, desvendado agora passados que são cerca de trinta anos.


TEU NOME

Menina de olhos tristes,
flor por vezes envenenada.
Em teu nome se mata,
por teu nome se morre.
Podem espezinhar tuas nove letras ...
que eu as transformarei em pétalas.
Podem calar minha boca
e cortar minhas mãos
que eu com os dentes te escreverei.
Nome criado para ser honrado,
não te deixarei morrer
porque a minha mão não treme
e o meu querer jamais há-de vacilar.

TON NOM

Demoiselle aux yeux tristes,
Fleur souventes fois empoisonnée.
En ton nom l’on tue,
Pour ton nom l’on meurt.
En viendraient-ils à piétiner tes neuf lettres
Que moi je les transformerais en pétales !
Tenteraient-ils de me fermer la bouche,
De me couper les mains :
Que moi je t’écrirais avec mes dents !
Nom crée pour être honoré,
Je ne te laisserai pas mourir
Parce que ma main ne tremble pas
Et que mon vouloir jamais n’hésite !

domingo, 30 de maio de 2004

POEMAS COM HISTÓRIA:

Julgo que foi no início da década de 70. Tremor de terra sentido com grande intensidade na área de Lisboa. Eu trabalhava por turnos e naquela madrugada estava no aeroporto. Depois da saída dos aviões da noite, o andar onde trabalhava encontrava-se silencioso e quase sem ninguém. Vim a saber que só éramos duas almas. Eu e o Santana, colega da KLM que viria a falecer prematuramente. Estávamos a cerca de cinquenta metros da primeira saída, com escadas de caracol a utilizar se fosse necessário. O meu gabinete dava para o então parque principal de estacionamento e o do Santana, mesmo em frente, dava para as pistas. Quando tudo começou, cada um abriu a sua porta e encontrámo-nos no corredor, de olhos esbugalhados, esperando que tudo desabasse. Nada aconteceu durante aqueles segundos intermináveis que pareceram minutos.
Mais calmos e depois de termos telefonado para as famílias, descemos ao hall principal do aeroporto utilizando as tais escadas, evitando o elevador.
Os candeeiros pendurados no tecto alto da entrada do aeroporto ainda baloiçavam. Começavam a chegar pessoas ao aeroporto, algumas em pijama (!), procurando – segundo elas – um local mais seguro para se refugiarem de eventuais réplicas.
Quando regressei a casa, apesar de cansado, não conseguia dormir. Fechei os olhos, sonhei e depois escrevi.


SONHO EM FEVEREIRO

A terra revolve-se
nas suas entranhas,
as casas vibram,
os velhos tropeçam,
as mulheres gritam,
as crianças brincam –
- sem nada entender.

Respiro caliça.
O calor abrasa-me.
A cidade fantasma
continua a agitar-se,
a tremer, a tremer
em sacões violentos.

Línguas de fogo
tudo lambem,
as labaredas
tudo iluminam
com ar sinistro.

Mescla de cores,
sons e cheiros
que eu quisera não sentir.
As crianças agora já choram
e as flores começam a murchar ...

sábado, 29 de maio de 2004

POEMAS COM HISTÓRIA…

No Verão de 1969 fui com uns amigos à Costa da Caparica. Depois de um dia de praia, lembrámo-nos de alugar bicicletas e fomos até à Fonte da Telha. No regresso, atrapalhei-me com um carro que abrandou à minha frente numa descida. Travei, fui projectado e fiquei preso ao guiador pelo cinto. Queda, queixo ao chão, sangue pelo ouvido e 24 horas no Hospital de São José. Que recordações eu guardo desta estadia! – Deitado sempre numa maca, pertences escondidos debaixo da roupa, um «vizinho» que faleceu e ali ficou horas «porque já não havia nada a fazer», o pequeno-almoço servido nuns recipientes de alumínio com aspecto sujo e enferrujado e, finalmente, a «alta» porque estava tudo bem!
Passados tempos, uma médica da «Caixa» chamou a atenção para o facto de eu estar a ficar com o maxilar inferior avançado, consequência – vim a saber – de uma fractura de um osso da cara, junto do ouvido. Para corrigir tive de andar cerca de um mês com um aparelho nos dentes, para me fixar os dois maxilares. Como os dentes não eram famosos, além da incomodidade sentia dores. Aproveitei a «baixa», uma das poucas na minha carreira de 47 anos, para ir à praia. Estive na casa do meu irmão no Murtal e na da minha irmã em Monte Gordo. No entanto, sentia-me como um prisioneiro. Eis o que escrevi, há quase 35 anos.


PRISIONEIRO PRÓPRIO

Grades,
arame farpado,
dificuldades,
noção de liberdade
sem a ter,
noção de o comer
sem o fazer,
insónias,
pensamentos,
desconforto,
rotina ...

Cães a uivar
quebrando o silêncio
da noite,
galos a cantar
anunciando a aurora,
estrelas que empalidecem,
o sol que renasce ...

Tudo a trazer-me a certeza
do Hoje se repetir amanhã !

sexta-feira, 28 de maio de 2004

O CRIADOR...

Desenho "Life" (Vida), feito pelo designer Roberto Bozzetto. Sem palavras ou diálogos, conta em resumo as decepções do Grande Arquitecto do Universo, ao planear a vida num certo planeta do sistema solar...
Veja clicando aqui:
http://www.bozzetto.com/Flash/Life.htm

quarta-feira, 26 de maio de 2004

Texto da minha amiga Rosário:

«NÃO CAEM BOMBAS DO CÉU

Não caem bombas do céu nem andamos pelas montanhas em busca de refúgio. Vivemos na Europa dos quinze, dos Jaguares, dos iates, do Euro. A maioria da população é de um louro pálido, mas como que envergonhada por tais cores, ou talvez rendida aos encantos dos machos mais morenos, corre para os países do Sul em busca de uma cor que acaba por se fixar no vermelho santola.

Na cidade a população continua a correr para o comboio ou a estagnar nas auto-estradas, onde, impotente e irritadamente, toda a gente fica em transgressão.

No primeiro sinal luminoso o mesmo mendigo de sempre. Andrajoso, a cheirar mal, com um braço deficiente a sair da camisa. No segundo, o mesmo rebanho de filhos, que de sol a sol é remetido a este não trabalho infantil.

As conversas de café, com as variações de sempre emolduradas por expressões de ódio.

Em todo o lado se grita. Em todo o lado se discute. Em todo o lado se é o maior do mundo (o mais infeliz também, penso eu).

Não. Não caem bombas do céu. Não andamos pelas montanhas. Não esperamos o auxílio da Cruz Vermelha.

Aqui temos a calma alegria de ver Mercedes e pés descalços, palácios e mendigos a dormir nas ruas, hotéis de muitas estrelas e a sopa dos pobres, sucesso e miséria.

Mas que raio, que importa a miséria? Pedem? Vão trabalhar! Não têm dinheiro para dar de comer aos filhos? Não os tivessem tido! Não têm como pagar a casa, a roupa, a escola?? Impossível!, então e o rendimento mínimo garantido?

Além disso, além de tudo isso, faz parte das leis da natureza que só os mais aptos sobrevivam.

Não, na Europa dos quinze, nos Estados Unidos, no Japão, não há guerra! É que somos evoluídos. Somos países democráticos. As pessoas podem escolher. Se um partido não cumprir o seu dever manda-se para a rua, escolhe-se outro. Somos bons.

Sou feliz por ser da Europa dos quinze! Por não termos bombas a cair do céu, nem gente nas montanhas em busca de refúgio, por não precisarmos da Cruz Vermelha, nem dos Médicos sem Fronteiras, nem de nada!

E se um dia destes eu morrer, de frio, chuva, suor ou dor, tudo estará bem, pois será porque faço parte dos menos aptos.»

domingo, 23 de maio de 2004

Poemas da minha amiga Olympia Salete Rodrigues – Brasil, quando do desaparecimento recente do Arthur, seu cão, amigo e companheiro:


AO AMOR MAIS FIEL

Arthur, meu querido Arthur,
a vida foi cruel comigo
ao levar você.
Mas foi melhor assim.
Eu prefiro chorar
a dor dessa perda,
do que você um dia sofrer
a dor de me perder.


A ENORME CASA PEQUENINA

A casa pequenina
ficou enorme de repente.
Enorme e vazia.

Partiu o seu dono
dedicado, envolvente,
que era todo alegria,
pura fidelidade.

No escuro vazio,
dois olhos de pranto
perderam o encanto,
refletem saudade.



"...eu não era a dona do Arthur, ele era o meu dono,
o dono da casa, como eu dizia...
… nós dois fomos bichos de sorte!"

sábado, 22 de maio de 2004

Durante uma visita ao Hospital Júlio de Matos, o Primeiro-Ministro, Durão Barroso, perguntou ao Director qual o critério para definir se um paciente se encontra curado ou não. (O que no fundo pretendia saber era se ele próprio está louco ou não - como se comenta por aí à boca pequena).
- Bem – disse o Director – enchemos uma banheira com água, damos a escolher ao doente uma colher de chá ou uma chávena e pedimos-lhe para que esvazie a banheira.
- Já entendi. – disse Durão Barroso – Uma pessoa normal escolhe a chávena, porque é maior!...
- Não... – Responde o Director, muito amavelmente – Uma pessoa normal tira a tampa do ralo...

terça-feira, 18 de maio de 2004

PARA SORRIR (EM PORTUGUÊS VERNÁCULO...)

PAPAGAIO

Num prédio, havia um vizinho que tinha um papagaio.
Nesse mesmo prédio, saía uma Senhora todos os dias para o trabalho. O papagaio via a Senhora a sair e dizia-lhe:
- TODA BEM VESTIDA, TODA BEM PINTADA, VAI PARA A VIDA!
À noite, quando a Senhora regressava, o papagaio lá estava e dizia-lhe:
- TODA BEM VESTIDA, TODA BEM PINTADA, VEM DA VIDA!
Passados alguns dias, a vizinha muito chateada, resolve ir fazer
queixas ao marido.
- Vê tu, que o papagaio do vizinho, todos os dias, quando saio diz-me que vou para a vida, quando venho para casa, diz-me que venho da vida. Só pode ser o vizinho que lhe ensina.
- Deixa lá mulher, no próximo Sábado emprestas-me a tua roupa e
compras-me uma cabeleira da cor do teu cabelo, que eu trato do resto.
Assim fez!
Quando o papagaio o viu, disse-lhe:
- OLHA QUEM VEM LÁ TODO LAMPEIRO!...
- DURANTE A SEMANA É CORNO E AO FIM-DE-SEMANA É PANELEIRO!

Se lês espanhol e conheces um pouco a língua de nuestros hermanos, visita este site. Verás qualquer coisa de muito impressionante!
Segue tudo à risca.


http://bug.do.sapo.pt/lince2.html

sábado, 15 de maio de 2004

PASME-SE!

Lido no «Público» de ontem.

O sociólogo António Silva e Costa afirmou em Braga, no desenrolar do V Congresso Português de Sociologia: «O Euro-2004 é, porventura, o acontecimento mais importante para o País desde os Descobrimentos».

Comentários para quê, se a frase fala por si!
História de Portugal? – Vazio completo após os Descobrimentos!
O 25 de Abril de 1974? - Se calhar nem existiu!

Crise de valores ou incompetência para comunicar?
Enfim, temos os sociólogos que merecemos, num país balizado entre os Descobrimentos e o Euro 2004.

sexta-feira, 14 de maio de 2004

CASA PIA DE LISBOA

O caso é por demais controverso e tenho evitado falar nele com receio de ser mal interpretado.
Vou-me limitar a deixar algumas observações e perguntas:
- Os miúdos, que têm sido apresentados como vítimas dos vários arguidos, foram raptados? Foram sequestrados? Foram violentados? Foram violados?
- Ou prostituíam-se?
- Alguma vez recusaram o que lhes era dado em troca de actos sexuais?
- Não seria dentro dos muros da Casa Pia que teriam lugar as sevícias e violações que levariam muitos jovens a enveredar depois pela prostituição?
- Não seria mais lógico que as investigações se baseassem sobretudo no que se passou intra-muros, encontrando aí os grandes responsáveis, directos ou por omissão, sem esquecer os próprios órgãos de tutela?
- Porque será que o verdadeiro violador/pedófilo, o «célebre» Bibi, é apresentado muitas vezes como o «coitadinho» que, por não ser mediático nem ter meios para se defender, irá pagar por todos os outros?
- Não teria sido ele próprio vítima do sistema enquanto miúdo?
- Com tanta miudagem envolvida e que, segundo parece, enchia o Parque Eduardo VII e a zona de Belém (além de «entregas ao domicílio»), será que só estão envolvidas pessoas mediáticas?
- Ou será que as investigações e queixas só incidem sobre estas, porque são as que fazem vender jornais e aumentar as audiências?

Que responda quem souber!

quinta-feira, 13 de maio de 2004

CURIOSIDADE...

Crie o seu próprio mini desenho animado e envie aos seus amigos!
Visite o site a seguir indicado:

http://www.dfilm.com/

quarta-feira, 5 de maio de 2004

Poetando...

CRIANÇAS (quadras)



Tanta fome que há no Mundo,
Tanta criança a morrer:
- Um sofrimento profundo
Por não poder socorrer.

Neste nosso mundo cão,
Crianças não são iguais:
- A umas falta-lhes pão,
Outras têm pão a mais.

Ao ver crianças brincando,
Alegram-se os sentimentos:
- É ver a Terra girando
Em perpétuos movimentos.

************************************

MÃOS DE MÃE

Se uma mão embala o berço
Para que um anjo adormeça,
Eu logo ali reconheço
O que lhe vai na cabeça.

Apenas espera o bem
Do seu filho pequenino,
Com o seu amor de mãe,
Teme pelo seu destino.

Embevecida olha o berço
Dum menino sem maldade.
A outra desfia o terço
Com fé e ansiedade.

Só boa sorte deseja
Àquele ente pequenino.
Pede a Deus que o proteja,
Rezando p’lo seu destino!



NB – Mote obrigatório: «Se uma mão embala o berço / Do seu filho pequenino, / A outra desfia o terço / Rezando p’lo seu destino!» de Fernando Máximo.

terça-feira, 4 de maio de 2004

Epílogo do Poema de António Aleixo, de Goyânia (Brasil):


AMÔ CAIPIRA

(em goianês)


EPÍLGU



Inda tô cuma duensêra
Agora atacô ua cansêra
Pissicólgo díci qui tô camênti sã
Cunçiguí diferençá brinjela di maçã
O resto do corpo tá tiníno
Só a paciênça qui tá puíno
Áxu bão ôçê cumeçá mi cortejá
Tá paçânu da ora di nóis si cumbiná

Pois no verão sô inganádo
No otônu sô ludibriádo
No inverno sô sacaniádo
I na primavera sô tapiádo
Na xêia ieu tô pachonádo
Na minguânti tô gamádo
Na nóva tô inamorádo
I na cressênti tô incantádo

Inda num tô isquizofrênu
Mais tô loquím loquím
Prá ti dá omênu um beigím
Si num dé vô ficá aqui sofrênu
Mi mandarum durmi im cama di taboca
I cumê xurasco cum mandioca
Diz quié pá fazê a verga ficá têza
I si isquentá a friêza

Tumbém pá cabá a frigidêz
I prulongá a rigidêz
Cumê quibébe di macaxêra
Salada di amêxa i pêra
A vontádi di inhanhá num cabá
Cum dôssi di cumpóta di jabuticanba
Ô gemáda di ôvo di cadórna
I bânhi im água bastânti mórna

Conós quando num é fingimêntu
É pió, é pirássa e dizintidimêntu
Nóis nunca si tênhi arripindimêntu
Já qui nóis vai cunstituí famía
Agênti pudía pará quéças arrilía
Fazê as páis i brincá di fulía
Mais cem lagá diçê çéro
Pois vâmu cunstruí um impéro



Vô assendê fuguêra di bambú
Prá isquentá ôvo di anú
Batído cum crísta di urubú
É o remédi deçê guela adêntu
Ficu maluco i ti rebêntu
Pois sô é munto briguêntu
Adispois vô mi derretê di xorá
Num quiría i num póçu ti maguá.

Apezar di tá arrezurvídu di nôçê dá uns tápa
Ninguém mi cigúra nem sô pai nem o pápa
Nada ti sárva, nem carta di forría
Nem Nóça Cinhóra Dabadía
Déça vêis ti pônhu no prumo
Chêga dôçê andá sem rumo
Vai acabá minha pelêja
Vô ti levá prá igrêja

Vãmu cazá cunfórmi a riligião
I dêntu da lei i tradissão
Num pricíza mi ispetá fuzíli
Tumbém é cráro, cazêmu no civíli
Ôçê vai tá di vél i grinárda
Ieu vô vistí térnu i não fárda
Na festa vai tê frângu i cárni açada
Arrôis cum gueróba i armônca máu paçada

É bão nóis pará quéça guerra
Purquê ôçê é minha DEUZA na terra
Ieu sô seu rei na serra
Nóço lár çerá abenssoádo
Mêmu não sênu um sobrádo
Çerá um biônco tampádo di fôia di bacurí
I sercádo cum tába di piquí
No quintáli ua lavôra di bacachí

Fáiz sóli ô pódi xuvê
Vâmu fazê céquissu cum prazê
Trêis vêis pur nôiti cem izagêro
Jáquê é digrássa num gasta dinhêro
Adispois di nóvi mêis ôçê vai parí
Na premêra ninhada um punhado di gurí
Num é mais adeus adeus amô caipira
Inté qui infim acabô éça ziquizira


ANTONIO ALEIXO – Brasil

segunda-feira, 3 de maio de 2004

Poema de António Aleixo, de Goyânia (Brasil):


AMÔ CAIPIRA

(em goianês)


CAPÍTU VIII



Bênhi qui minha mãe mi avizô
Quieu nunca ia tê seu amô
Mais sô temôzo i num dei ôvido
Tumbém sô birrêntu i burricído
Inmínhas vêia córri venênu di cascavéu
Sieu ti mordê é purgatóro ô céu
Prá aliviá o qui tá mi curruênu
Vô cumê anapiê, braquiára i fênu

Pramódi ieu si apaziguá
Tênhu qui tumá munto xá
Um deles vaiçê di raís di cambará
Ôto vô fervê fôia di taióba
I misturá cum leite di andiróba
Vô ingirí êçe cárdo bênhi môrno
Çerrá o xífre no tôrno
Vê si ivíta di mostrá qui sô côrno

Ôçê num tênhi xífre, tênhi zagáia
Suas marvadeza firrúa quinum fáia
Oçê ispinha quiném macaúba
Apezar di sê suavi cuma a xúva
I asvêis é dôssi cuma úva
Apezar díssu inda tô gamado
Mais parêssu bizêrro dismamado
Divéra mêmu ieu sô é azarado

Príço vô tumá geção di arcêno
Pará nalação di oquicigêno
I rispirá gáis carbonio i drogêno
Aí fícu bênhi cuntaminado
O sângui vai ficá invenenado
Vô morrê todo ruchiado
Pençânu mió vô bebê antído
Pois quero sê seu marído

Os úrtimo xá vai sê di quina
Cum favaca, breu i rizina
Dis qui o máli sai na urina
Uma quentada de cárdo de algudão
Cúa batida di melão
É só bebê i corrê prá mijá
Déça vêis si num sará
Nada mais vô tumá



Num quero sabê di lero-lero
Vâmus arresorvê éça paráda
Do geito qui tá num tá cum náda
Cada dia mais mi defínhi
Prissízu di pelumênu di um beicínhi
Ti âmu mais num sô currespundido
Paréci qui fásso as coisa iscundido
Minha nota proçê é zero

Há! Meu Deus cuma tô pachonado!!!!!!!!
Tô tantã i açombrádo
Áxu qui tô mei bobádo
Siéqui num tô di vento-virádo
Pois tô arfânu i di zói vidrádo
Tumbém tô páfrênti i incurvádo
Si idintifícu cum lubizômi
Príçu cumígo oçê num drômi

Num prissíza durmí na mêma cama
Básta oçê fingí qui mi ama
Pudêmu deitá no xão duro
No dia cráro ô di noiti no iscuro
No cazo di sê só fingimêntu
Ieu si discubrí, num agüêntu
Ti pégo ti istrangúlo i ti máto
Típico tiponho no saco i jogo no máto

Vô fazê ôçê bebê ólio di peróba
Disquê rigúla menstruassão
I inda máta cossêra di cansação
Sóqui num aprúma nem derróba
Tifásso tumá infuzão di arruda
Tumbém si num pará éça zona
Ti impanturro di azeiti di mamona
Aí ôçê vai pricizá di ajuda

Inda mais sieu tijogá gazulina
Num dianta oferecê propina
Oçê num é minha cuncumbina
Sóquê oçê num pódi si quemá
Sinão cumé quieu vô ti gosta?
Amá, adorá i venerá
Nem pençá dôçê í pu-ispitáu
I os infermêro tivê di fiodentáu





Só ieu póçu vê éças pernona
Apezar di sê mei cafona
Si óio numei das suas côxa
Vêju sua carçinha branca cum sombra rôxa
É a rasão do meu ciúmi
Aí na frênti da cársa armênta o volúmi
É quê sôfru di priapísmo
Um discontrôlo do ganísmo

Aí pençu qui ôçê é todinha minha
Seu bêju tem gosto di pudim
Sua nuca tem xêro di jasmim
Seu corpo paréci uma bunequinha
Porênhi seu subáco tem orôma di guiné
I os pé é azedo pur cáuza do xulé
Já seu bafo ressêndi ofáto di fedegozo
I seus cabelo é preguêntu iguár melozo

Assimêmu siçigura bênhi seu táco
Vô ti tirá dêci azílo
Num tênhi zôrra nem grílo
Si bubiá ti levo prumeu barráco
É qui oçê é uma tetéia
Mais já tá ficânu véia
Num é pobrêma soçê fô minha patrôa
Táxo veio qui fáis cumída bôa

Vô ti iscupí im cubo di gêlo
Quié pá num durá iguár di madêra
I pá limpá num dá trabaiêra
Vô caprixá nas curva i cutuvêlo
Çerá minha obra di orgúio
Quando derretê num fáis barúio
Os cubo terá orôma di sabuguêro
Mais inlamêia cuma xiquêro

Ôçê é minha Fréda
Di corassão di préda
Oçê é a afrodíti
Quem quizé qui aquerdíti
Mais íçu num apága seu bríu
Sôçê dexá ieu tifazê um fíu
Cem interferênça di pomba-gira
Adeus adeus amô caipira

domingo, 2 de maio de 2004

Poema de António Aleixo, de Goyânia (Brasil):


AMÔ CAIPIRA

(em goianês)


CAPÍTU VII



Mêmu si mí batê cum burdúna
Num bêbo decoção de piúna
Nênhí si fô mandado pur canhôto
Tomém num tômu mistura de azôto
Fújui cuma um curiscu
Num mi péga nem trisca
Inté durmu nu çerênu
Ôndi ninguém tivé mí vênu

Mais soçê num si aliviá êçi bodum
Num ti quéru dijeitu ninhum.
Êta xêru de jaratatáca!
Deusmilivi désça inháca
Pá tirá içu doçê morena
Sóssí isfréga petá di assuçena
Qui vai tidexá cum um xerím
Iguár as rosa mogorím

Sitivé limpinha e cem CC
Todo mundo vai ti querê
Sunçê vai sitorná filé
Cum sabôri de suqui di mururé
Curtídu cum pinga i cum capilé
Tânu gostoza cuma ôçê vaitá
Querênu ô não tênhi quimidá
Mêmu cenquerê vô ti istrupá

Tô pur dimais dismilinguido
Num vô sê seu marido
Mi infiarum ua tizana
Di çeiva di jagoirana
Içu tudu é imbondo
Antis venênu di marimbondo
Só quéru oçê quoeu
Pódi çê culorida cuma breu

Palavriei inté mi cançá
Tentânu ti cunquistá
Indabém qui ieu num tava mamânu
Poiz oçê num tava gostânu
Parei cá cunverça chuja
Arreneguei o dizê bizurría
Uzei de sabiduría
Paçei a imitá curuja

Adispois di uas carraspana
Si amuléssi as pestana
Si fica cum xêru di rabuju
Indamais sitivé chuju
Bôca cum gôsto di cábu de guardaxúva
Brasso pinicânu feitu saúva
Cabêssa zuânu cuma abêia
Bafo xerânu a xulé di mêia

Oçê ta milevânu na mumunha
Daqui prá frênti tô di ôi
Vô passa o cárru nafrênti dus boi
Ah! Vô apertá as cunha
Torcê bastânti as corêia
Cárru apertado qui canta
Ié sêdu qui si levanta
Pois tô vênu as coisa fêia

Ah! meu zuscristim
Tenha dó dimim
Tão mi impurrânu pru capêta
Já tô vênu ele pela grêta
Vuânu feito brabulêta
Vênhi andânu capenga
Balançânu a istrovenga
Ieu aqui neça lengalenga

Num sô nada na vida
Pricuru a sorte pirdída
Vênhi midá a sua mão
Num cunçígu mi cunformá
Já pirdí tumbém a razão
Nênhi dianta mi paparicá
Arguém robô oçê dimim
Ancim vô ficá sozim

Oçê é gata nu teiáso
Bicervânu o cél azú
Óia pru nórti i pru çú
Só iscutu seu runrunádu
Ieu sônhu acordádo
Pensânu qui coce tô abraçádu
Num quéru mais vivê
Prifíru disfalecê





Todo mundo sábi qui sô um pilingrínu
Qui zanza cem distínu
Tô vivênu um tormêntu
Já num mais aguêntu
Dêxa omênu ficá doçê juntim
Dispois çígu meu camim
Inté arcançá meu fim.

Pençei im bebê istânhi dirritido
Ô metê ua bala nu uvídu
Serteza dieu mi istrubicá
Omênu nunca mais iscutá
A arma ia vuá feito bejafrô
I o corpo istribuxá de dô
Ia dá panca pá juntá us miôlo
Ah! chega de rolo!

Pur pôca coiza tô fazênu fuá
Inté pirdí u paladá
Fiquei de istâmu fûndu
Tinha fome di cumê xûmbu
Um rói-rói nas tripa
Vontádi di ingulí feito xiriríca
Pá alimentá minhas améba
Qui cômi cuma pôicu na céva

Si revigóro i vórtu musculozo
Çêcu di cedi nas suas muxiba
Oçê pur báxo ieu prurríba
Um agarra-agarra dificurtozo
É ancim cá coiza fica boa
Nu iscôndi-iscôndi atráz di taboa
Num mim impórtu diçê coió
Dêsdi qui tênhu oçê pramim só

Têmhu tezão de bódi
Cumigo-ninguém-pódi
Déça vêis ninguém tiacódi
Nênhi pricízo vêrga têza
Prá dá geitu néça beleza
Num dianta mim inpô quijila
Deça vêis vô sê cauíla
Adeus adeus amô caipira

sábado, 1 de maio de 2004

Poema de António Aleixo, de Goyânia (Brasil):


AMÔ CAIPIRA

(em goianês)


CAPÍTU VI



Ôgi bibí xá di sabuguêro
Di bacáti i fôia di coquêro
Sangradágua i leite di gamelêra
I cumi parmito di palmêra
Sumo di çapêchi cum ortelã
Amaçáda di semênti di rumã
Foi mêmu qui bebê só água
Cuntinuei duênti i cum mágua

Nada tabão prá mim
Cuntinuu munto duentím
Cada vêis mais magrím
É fárta do seu aféto i ternúra
Da sua meiguísse i da sua dossúra
I do ecéssu da minha lôcúra
Vô pricurá quem sábi fazê sumpatía
Si fô o cázo vô inté na Baía

Si pai di santo num adiantá
Deus milívri, inté cum vodú vô pegá
Êçi sei qui mi adigitóra
Procê na çérta qui pióra
Çê vai adueçê di nóis ficá cum dó
É dô na cabêssa i nus peito
Dói o ombro isquerdo i direito
Fica dilurído a pereréca i o fiofó

Aí vosmecê vai querê queu ti oxilío
Num sô di vingânsa, ieu ti acarissío
Ti cúbro i num dêxo oçê paçá frío
Proçê assêndu inté larêra
I ficu ti velânu na cabicêra
Pódi rancá todo meu pêlo
Çê vai tê todo meu zêlo
Cum merçê, favô i disvêlo

Vô mi ismerá im gintileza
Inda cum coidádo i presteza
Vô pricurá ti zelá cum dedicassão
Munto táto i moderassão
Diferênti doçê vô tidá carím
Amô i afágo, tudo cum geitím
Mêmu qui sêgi contra sua vontádi
Vô ti tratá cum bondádi



Pódi ficá tronquíla i açussegáda
Cus meus préstimos sua duênsa num é náda
Oçê vai bebê suco di pitanga
I cumê pôpa di manga
Si inxê di mané peládo
Brôa i pão torrádo
Vai si livrá da brucharía
I vortá a carmaría

Aí ieu vórtu a perengueza
Mi péga nova maleza
I vô curtí dinôvo a tristeza
Diácho di vida mardíta éça nóça
Cu perdão da palavra é uma jóssa
Quando num é briga é fóça
Pudêmu fazê pruméssa
Cunóis é azári a béssa

Aligría di póbri dura pôco
Inda mais prá santo do páu ôco
Ricunhêssu qui num sô frô di cherá
Mais tumbém ôcê num pódi mi cruçificá
Prá cada defeito meu
Ressárta ôto defeito seu
Um bão izêmpro é seu disprêzo
Qui pago cum minosprêzo

Qui bósta! Cuntinuu ti querênu
Tarvêis um tiquim mênu
Di quárqué geito tô sofrênu
Ôçê fáis dimim um tiongo-mongo
Chêga, vô çoá o gongo
Níço, vô dá um básta
O querê tumbém gásta
As aza, sôçê quizé ôçê rásta

Agora nóço relaçonamêntu isfría
Cuma barriga di gía
Cançei di sê seu capáxo
Pódi baxá o fáxo
Sê sua cadêra dobrávi
Sê seu lênso discartávi
Sê seu saco di pancada
Prus ôtos tudo, pramim nada





Ôçê num mi dá nem ua palávra
Nem di bênhi nem qui agráva
Pramim ôçê num rebóla
Só prus coléga di iscóla
Proçê ieu sô Genaro meu bêm
Só ingânu i no fim amém
Proçê ieu sô o arlequim
Apenas um réliz bunequim

Mêmu num valênu um centávo
Quando oçê pricíza ti sárvo
Pur oçê tô ficânu lôco varrido
Sô só prântu, funguêra i gimido
Nada ricurçêia mais num cústa tentá
Pás ôtas ruidádi tumo xá
Na tóssi túmo charópi de graviola
Pá gargânta bêbo suco di carambola

Ancin qui ôçê fica bôa
Vórta a pulítica di mi ispizinhá
Impurrá, agridí i dizaforá
Purcáuza di nada, mi magôa
Intão vô coiê Jamelão no serrado
I rancá gervão no dismatado
Quêlis vô fazê uma firvura
Bebê pá matá éça cicura

Amô cuma o meu proçê
Nunquinha qui vai nassê
Di imitassão pódi apareçê
Apezar dôçê ele num mereçê
Nunca vi amô mais grudêntu
Paréci xapiscado cum simêntu
Do tamânhu do seu pensamêntu
Si axá qui tá piquênu ieu armêntu

Tumára quieu num prissízi si cunsurtá
Munto mênus si interná
Já sufrí pur dimais
Um dia ôçê mi xuta
Nôtro num mi qué i rifuta
Num quero tivê jamais
Pramim ôçê pódi dançá o vira
Adeus adeus amô caipira

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