Foi
um filósofo, pedagogo, escritor e professor
universitário português, autor de uma extensa obra abrangendo os géneros do
tratado filosófico, do ensaio, do memorialismo, da oratória, da crítica
(literária e alguma cinematográfica) e da crónica, difundida em numerosas
publicações da imprensa periódica, científica, cultural e da especialidade.
Foi
baptizado em 25 de Dezembro de 1907, como filho de Arnaldo Pinto, ourives,
natural da freguesia e concelho de Peso da Régua, e de Amélia dos Santos
Oliveira Pinto, natural de Baião (freguesia de Ancede).
Começou
a trabalhar aos onze anos de idade, ajudando o pai na sua oficina de
ourivesaria. Pouco após a morte deste, ocorrida em 1922, quando o filho tinha
apenas quinze anos, compreendeu que a sua vocação seriam os estudos e
inscreveu-se no ensino liceal nocturno, concluindo em 1927 o Curso
Complementar de Ciências e o de Letras. Por essa altura foi um participante
empenhado nas actividades culturais e desportivas da Associação Cristã da
Mocidade, de carácter protestante.
Em
1931, licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de
Letras da Universidade do Porto. Foi aluno de Leonardo Coimbra, de
quem se tornou amigo e admirador, embora não discípulo do filósofo do Criacionismo.
Outros professores influentes foram Teixeira Rego, Newton de Macedo, Luís
Cardim e Aarão de Lacerda e foram seus condiscípulos Agostinho da Silva, Álvaro
Ribeiro, Adolfo Casais Monteiro, Sant’Anna Dionísio e José Marinho, entre
outros.
Após
o curso, iniciou estágio no Liceu Nacional José Falcão, em Coimbra (1931/1932),
durante o qual se associa aos animadores do grupo da revista presença - José
Régio, João Gaspar Simões e Alberto de Serpa - interrompendo a docência no ano
lectivo seguinte para completar as cadeiras pedagógicas na Universidade de
Coimbra, e concluindo o segundo e último ano do estágio já em Lisboa, no Liceu
Normal de Pedro Nunes (1933/1934), onde em Julho de 1934 fez o Exame de
Estado para habilitação à docência liceal no ensino oficial. Prosseguiu a
carreira em Lisboa como Professor Associado no Liceu Gil Vicente
até 1935.
Em
15 de Abril de 1935, casou s primeira vez civilmente, em Lisboa, com Christine
Thérèse Brunner, uma cidadã suíça natural de Berna, então com 25 anos,
doméstica, filha de Max-Rudolf Brunner, também natural de Berna, e de Laura
Campos e Castro, doméstica, natural da Covilhã. Por sentença transitada em Julgado
a 25 de Abril de 1956, os dois divorciaram-se litigiosamente, com fundamento em
«injúrias graves».
Em
Outubro de 1935, partiu para Viena por dois anos, como bolseiro do Instituto
para a Alta Cultura (IAC) para estudar com os filósofos Moritz
Schlick, Karl Bühler e Othmar Spann, estando entre os poucos alunos
estrangeiros que foram convidados a assistir aos seminários do célebre Círculo
de Viena. Escreveu então uma obra crítica sobre o Neopositivismo,
intitulada “Situação valorativa do positivismo”, que apresentou como
relatório final de bolsa de estudo ao IAC.
No
semestre de Inverno de 1936 partiu para Berlim para um primeiro contacto com
Nicolai Hartmann, seguindo em 1937 para o University College de Londres
para estudar com John Macmurray. Em seguida, continuou os seus estudos no Trinity
College (Cambridge), para onde se exilara parte do Círculo de Viena,
e onde trabalhou com Charlie Dunbar Broad e com George Edward Moore - que mais
tarde, em 1939, viria a ser substituído nessa Universidade por Ludwig
Wittgenstein.
Em
1937, regressou a Portugal, para logo partir de novo para a Alemanha, enviado
pelo IAC, como leitor de língua portuguesa na Universidade de Berlim.
Aí frequentou de novo os seminários de Nicolai Hartmann e familiarizou-se com o
pensamento de Martin Heidegger, de cuja obra se tornou atento leitor e
comentador.
Recebeu
em 1940 o grau de doutor pela Faculdade de Letras da Universidade
de Coimbra com uma dissertação versando sobre Conhecimento e realidade,
voltando novamente para Berlim até 1942, data em que regressou definitivamente
a Portugal.
Após
uma breve passagem pelo Liceu Camões, onde foi professor dos futuros
escritores José Cardoso Pires e Luiz Pacheco, foi convidado a integrar o quadro
da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa onde ingressou
no início de 1943 na Seção de Ciências Pedagógicas com a categoria de primeiro
assistente e aí iniciou uma brilhante carreira de professor; em 1947,
concorreu a professor extraordinário da mesma Seção com a dissertação Fundamentação
existencial da pedagogia e em 1950 tornou-se o primeiro professor
catedrático de Pedagogia em Portugal. Regeu as cadeiras de História
da Educação, Organização e Administração Escolar; Moral; e História
da Filosofia Antiga (1943/1947), bem como, desde 1948, o curso de Pedagogia
e Didáctica. Também foi professor de Psicologia e Sociologia no Instituto
de Altos Estudos Militares em diversos anos lectivos entre 1955 e 1962.
Participou
em numerosos congressos internacionais de filosofia na Europa e, em 1949,
integrou a delegação oficial portuguesa ao Congresso Nacional de Filosofia
em Mendoza, Argentina; em 1954, tomou parte, com outros intelectuais
portugueses, na representação oficial portuguesa às comemorações do IV
Centenário da Fundação da Cidade de São Paulo, que então decorreram na
capital paulista, sendo convidado para orador na sessão plenária inaugural do Congresso
Internacional de Filosofia. Idêntica distinção lhe foi conferida no Primeiro
Congresso Nacional de Filosofia em Portugal, realizado em Braga em 1955.
Em
5 de Novembro de 1957, casou pela segunda vez civilmente, em Lisboa, com
Manuela de Sousa Marques, natural da freguesia e concelho da Lourinhã.
Tendo-se
destacado pela sua abordagem filosófica aos temas pedagógicos, foi em 1962
convidado pela Fundação Calouste Gulbenkian a apresentar uma proposta
para a criação do Centro de Investigação Pedagógica desta Fundação,
tornando-se seu director desde 1963 até à sua morte ocorrida em 1966.
Foi
um dos pioneiros na adopção dos meios audiovisuais na Educação e nessa
qualidade foi convidado a presidir ao Conselho Pedagógico do Instituto
de Meios Audiovisuais de Ensino (IMAVE), organismo criado em Dezembro
de 1964 pelo Ministério da Educação Nacional para dar início no mês
seguinte à Telescola, vigente até 2003. Este importante recurso de
educação à distância para as populações rurais era direccionado para o então
chamado Ciclo Preparatório.
Delfim
Santos foi membro efectivo da Academia das Ciências de Lisboa, onde
ocupou a cadeira nº 37, precedido por Aquilino Ribeiro e sucedido por Domingos
Monteiro, bem como Presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE)
em 1962.
Entre
as muitas revistas nacionais e estrangeiras nas quais viria a colaborar
destacam-se as portuenses “Porto Académico” (1929), “Princípio” (1930),
“O Tripeiro” (1931), “Prisma” (1936/1941), a revista “A Águia”,
da qual foi o último director (1932), “Revista do Porto” (1941), “Prometeu”
(1947), “Ourivesaria Portuguesa” (1949) e os periódicos portuenses “Diário
de Sport” (1924), “Diário do Norte” (1949 e 1951) e “O Comércio
do Porto” (1957). Mas durante quinze anos manteve a sua principal tribuna
pública no lisboeta “Diário Popular” (de 1943 a 1958), contribuindo com
a sua reflexão para os grandes debates públicos, tendo também colaborado na
revista “Litoral” (1944/1945) e ainda na revista luso-brasileira “Atlântico”.
Professor
carismático, de genuína vocação maiêutica, criou vasto renome com as suas
aulas, atraindo ouvintes não inscritos como alunos regulares. O seu empenho
como educador abrangia a extensão universitária, levando-o a apoiar, promover
ou participar em inúmeras iniciativas como debates, ciclos de conferências,
palestras, com especial interesse pelas de proveniência estudantil, como as de
teatro universitário, apadrinhando o Grupo de Teatro Moderno, de
inovador repertório contemporâneo português. Conviveu também intensamente com
os meios literários e artísticos da capital, com destaque para o círculo criado
em torno da poetisa Natália Correia, entre outros grupos de diversas
sensibilidades.
Entreteve
uma rica correspondência com personalidades europeias e sul-americanas. Entre
os seus correspondentes estrangeiros com quem manteve contacto pessoal
destacam-se, entre muitos outros, os nomes de Sigmund Freud, Mircea Eliade e
especialmente Hermann Hesse (Prêmio Nobel da Literatura de 1946), em
cuja obra se reflecte a problemática educativa, sendo por sua iniciativa que em
1952 se publicou em Lisboa a primeira tradução portuguesa de Hesse, a novela “Ele
e o Outro” (Klein und Wagner), com tradução de Manuela de Sousa
Marques, a sua futura esposa.
Em
2011, o seu espólio foi doado pela sua viúva, Manuela de Sousa Marques, à Biblioteca
Nacional de Portugal, tendo sido efectuadas outras quatro incorporações em
2016 e 2017.
Em
sua homenagem, o seu nome foi atribuído a uma escola em Lisboa e a diversas
ruas em Portugal, nomeadamente em Lisboa (Telheiras), em Oeiras (Carnaxide), em
Évora e em Matosinhos (Custóias). Em 2016, por ocasião do Cinquentenário da
sua morte, o Município de Cascais atribuiu o seu nome à nova Rotunda
Prof. Delfim Santos que remata a A5.
Nesse
mesmo ano, a Biblioteca Nacional de Portugal promoveu uma ampla
exposição evocativa, intitulada “Delfim Santos, o filósofo do diálogo”,
acompanhada de um ciclo de conferências; entre outras entidades que assinalaram
a efeméride, destaca-se o Instituto de Educação da UL, a FLUL e a
Hemeroteca Municipal de Lisboa.
Morreu
em 1966, tendo sido sepultado no Porto, no Cemitério do Prado do
Repouso. Em 31 de Maio de 2017, a Câmara Municipal de Lisboa acolheu
Delfim Santos no Jazigo dos Escritores Portugueses, também conhecido por
«Panteão dos Escritores», no Cemitério dos Prazeres.


Sem comentários:
Enviar um comentário