quarta-feira, 14 de maio de 2014

14 DE MAIO - EDGAR RODRIGUES



EFEMÉRIDEEdgar Rodrigues, de seu verdadeiro nome António Francisco Correia, historiador, arquivista e escritor português, radicado no Brasil desde 1951, ano em que deixou Portugal para escapar à perseguição salazarista, morreu no Rio de Janeiro em 14 de Maio de 2009. Nascera em Angeiras no dia 12 de Março de 1921.
É lembrado pela sua ampla militância a favor da preservação da memória do movimento anarquista. Foi um dos principais responsáveis pela documentação e publicitação de boa parte da história do sindicalismo e anarquismo em Portugal e no Brasil, através de tudo o que publicou.
Tornou-se depositário do arquivo histórico do historiador e arquivista ucraniano Elias Iltchenco, após sua morte em 1982. Colaborou no jornal “Fenikso Nigra”, publicado em esperanto na cidade de Campinas, e na revista “Letra Livre” editada no Rio de Janeiro.
Juntamente com o historiador Carlos Carvalho Cavalheiro, Edgar Rodrigues auxiliou o escritor Jesús Giraldez Macía nas pesquisas para o seu livro sobre o militante anarquista João Perdigão Gutierrez (“Entre el rubor de las auroras”).
Foi igualmente autor de diversos verbetes relacionados com o anarquismo, publicados em enciclopédias e livros. Também foi responsável pelo prefácio da edição fac-similar do Jornal “O Operário”, de Sorocaba, publicada em Março de 2007.
O pai era militante anarco-sindicalista e participou no Sindicato das Quatro Artes, filiado na Confederação Geral do Trabalho e na Associação Internacional dos Trabalhadores, envolvendo vários ofícios da construção civil de Matosinhos. No final de 1933, este sindicato foi obrigado a fechar a sua sede oficial por causa da repressão ditatorial de Salazar. Parte do seu acervo cultural foi guardado na casa da família, onde também se passaram a realizar reuniões nocturnas clandestinas. O jovem António Francisco Correia, atrás da porta, escutava com muita curiosidade tudo o que se discutia naquelas reuniões.
Em 1936, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (depois, PIDE) invadiu de madrugada a moradia e prendeu o pai. O filho foi visitá-lo várias vezes nos calabouços da polícia política, durante as dez semanas em que ele esteve preso sem processo nem julgamento.
Quando o pai saiu da prisão, foi ”castigado” com o despedimento no seu emprego, o que fez a família passar por uma situação económica muito difícil. Nessa mesma época, já António tinha começado a escrever os rascunhos que formariam o seu primeiro livro. No 1º de Maio de 1939, juntamente com alguns colegas, faltou ao serviço como forma de protesto e reuniram-se para reafirmar as origens anarquistas da data, que na época era proibido comemorar.
Em Março de 1940, filiou-se no Grupo Dramático Flor da Mocidade (teatro amador), no município de Matosinhos, onde conheceu Ondina dos Anjos da Costa Santos, que seria sua companheira durante toda a vida. Também fez parte da direcção do Grupo Dramático Alegres de Perafita. Em Julho de 1951, encontrou-se pessoalmente com o notável escritor anticlerical Tomás da Fonseca e, no dia seguinte, para fugir à perseguição política do Estado Novo, embarcou para o Brasil.
Assim que chegou ao Rio de Janeiro, conheceu vários activistas libertários. A pedido de dois deles, redigiu um texto sobre a ditadura em Portugal, que foi publicado no jornal anarquista “Acção Directa” e lhe valeu passar a participar no grupo editor do mesmo. Em seguida, com a ajuda de vários companheiros, passou a publicar textos na imprensa libertária internacional e adoptou definitivamente o pseudónimo Edgar Rodrigues.
Publicou o seu primeiro livro (“Na Inquisição do Salazar”) em Maio de 1957. Tornou-se membro da Sociedade Naturista Amigos de Nossa Chácara. Em Março de 1958, por iniciativa do Grupo Libertário Fábio Luz, de que fazia parte, foi fundado o Centro de Estudos Professor José Oiticica, em homenagem ao recém-falecido José Oiticica e com o propósito de continuar a sua prolífera obra. Entre as actividades desenvolvidas, constavam conferências, cursos e leituras comentadas sobre arte, política, história, vegetarianismo, psicologia, teatro, cinema, literatura, geografia, sociologia e anarquismo. Em conjunto com outros grupos, também foram promovidos comícios do movimento estudantil e uma campanha pela libertação e asilo político do espanhol anarquista José Comin Pardillos. Outra iniciativa foi a criação da Editora Mundo Livre que publicou diversos livros anarquistas, entre eles “O Retrato da Ditadura Portuguesa” de Edgar Rodrigues, em 1962.
O Centro de Estudos Professor José Oiticica teve uma actuação anarquista durante doze anos (cinco deles já sob a repressão da ditadura militar brasileira de 1964/85), até ser invadido, assaltado e fechado pelas forças armadas. As prisões começaram a ser feitas no dia 8 e continuaram nos dias 9, 10, 15 e 21 de Outubro de 1969. Entre os muitos presos, estava Edgar Rodrigues.
Militantes anarquistas anónimos de São Paulo e de outras partes do Brasil contribuíram financeiramente para os gastos judiciais, numa grande demonstração de solidariedade libertária. O processo durou até Novembro de 1971. No mesmo período em que foi vítima deste processo militar, Edgar Rodrigues iniciou a publicação de livros que resgataram a história do movimento anarquista no Brasil e, posteriormente, a história do movimento libertário português.
Edgar Rodrigues escreveu 62 livros (entre 1957 e 2007), publicados sobretudo no Brasil e em Portugal, mas também em Itália, Venezuela e Inglaterra (alguns com várias edições). Por volta de 1976, participou no documentário “O Sonho Não Acabou” de Cláudio Khans, exibido algumas vezes na televisão e em eventos libertários.
Colaborou no jornal anarquista “O Inimigo do Rei”, enquanto ele existiu entre 1977/88, e também escreveu mais de 1760 artigos em publicações de 15 países, entre elas a “Voz Anarquista” de Portugal.
Entre Abril e Maio de 1986, participou no congresso para a reorganização da Confederação Operária Brasileira. Em Agosto de 1986, foi um dos sócios fundadores do arquivo Círculo Alfa de Estudos Históricos.
Deixou para a posteridade boa parte dos materiais de estudo (livros, jornais, fotos, cartas, actas, memórias manuscritas e demais documentos, muitos deles cópias únicas) que reuniu durante toda uma vida dedicada ao resgate da trajectória das actividades anarquistas no Brasil e no Mundo. Conseguiu todo este acervo, visitando velhos companheiros anarquistas, convencendo-os a escreverem as suas memórias, entrevistando-os e mantendo correspondência com eles. Comprou e conseguiu doações de vários materiais, junto de militantes históricos do movimento.
Edgar Rodrigues faleceu na sua residência, no bairro do Méier do Rio de Janeiro, devido uma paragem respiratória. Deixou esposa, filhos, netos e uma vasta obra anarquista que merece ser amplamente estudada.

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