terça-feira, 25 de outubro de 2011




EFEMÉRIDE Abebe Bikila, atleta etíope, primeiro homem a vencer duas maratonas olímpicas, considerado por muitos especialistas como o maior maratonista de todos os tempos, morreu em Adis Abeba no dia 25 de Outubro de 1973. Nascera em Jato, em 7 de Agosto de 1932.


Era filho de um humilde pastor de ovelhas. Nasceu no mesmo dia da abertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles de 1932. Logo que teve idade, alistou-se na Guarda Imperial, para melhor poder ajudar a família.


No exército, acabou por chamar a atenção do técnico Onni Niskanen, um sueco nascido na Finlândia, membro da Cruz Vermelha, que fora contratado pelo governo etíope para descobrir e treinar atletas com potencial para virem a ser campeões. Começou a praticar atletismo aos 24 anos de idade.


Em 1960, foi incluído na equipa olímpica apenas no último momento, quando o avião já se preparava para partir com destino a Roma. Substituiu Wami Biratu, que se tinha lesionado num tornozelo durante uma partida de futebol.


A Adidas, patrocinadora oficial dos Jogos Olímpicos de 1960, tinha poucas sapatilhas disponíveis quando Bikila foi experimentar as que devia usar durante a corrida. Nenhumas o faziam sentir confortável e ele resolveu correr descalço, a maneira aliás como sempre tinha treinado.


Completou a prova quatro minutos antes do segundo classificado, declarando que tinha fôlego para suportar mais dez quilómetros. A prova contou com 69 participantes e pela primeira vez foi disputada à noite, com guardas italianos segurando tochas ao longo do caminho. O seu plano foi bastante curioso. Ao fazer o reconhecimento do trajecto, alguns dias antes, observou o obelisco de Axum, que tinha sido retirado da Etiópia por tropas italianas. O obelisco estava a 1,5 quilómetro da linha de chegada e ele decidiu que deveria fazer a partir dali a arrancada final. Cruzou a faixa de chegada, sob o Arco de Constantino, com o tempo de 2 h 15 m 16 s, recorde mundial, tornando-se o primeiro negro africano a ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos.


Bikila voltou à Etiópia como herói nacional. A frase mais ouvida na época era que «tinha sido necessário um milhão de soldados italianos para invadir a Etiópia, mas apenas um soldado etíope para conquistar Roma». Foi promovido a Cabo e condecorado pelo Imperador Hailé Selassié, que lhe ofereceu também um apartamento e um automóvel.


Pouco tempo após os Jogos, uma tentativa militar de golpe de estado teve lugar no país e Bikila, que nada entendia de política, viu-se envolvido nele. Recusou-se a disparar sobre as autoridades e, quando o golpe foi derrotado, os principais envolvidos foram condenados à morte pela forca. Bikila foi perdoado pelo Imperador, após os pedidos de várias pessoas que atestaram a sua recusa em participar nos assassinatos.


Em 1961, disputou maratonas na Grécia, no Japão e na Checoslováquia, vencendo todas elas. Sem competir durante cerca de ano e meio, entrou na Maratona de Boston em Abril de 1963, chegando em quinto lugar, a única maratona que não venceu durante toda a sua carreira. Depois desta prova, voltou para casa e só veio a competir em 1964, numa maratona em Adis Abeba, que venceu.


Quarenta dias antes dos Jogos de Tóquio, durante um treino perto da capital, Bikila começou a sentir fortes dores e teve um colapso ao tentar continuar a correr. Levado ao hospital, foi-lhe diagnosticada uma apendicite aguda. Operado 35 dias antes da maratona olímpica, começou a fazer pequenas corridas nocturnas nos jardins do hospital, ainda em período prescrito de convalescença.


Foi para Tóquio sem a certeza ainda de poder participar na maratona. Entrou na prova, desta vez calçado, por exigência dos organizadores, e adoptou a mesma estratégia de 1960, mantendo-se perto do primeiro bloco de corredores até metade da prova, começando então a forçar o ritmo. Poucos quilómetros depois, tinha apenas a companhia de dois corredores, um deles o australiano Ron Clarke, então recordista mundial dos 10 000 m. Bikila entrou no estádio olímpico sob as aclamações de setenta mil espectadores, com quatro minutos de vantagem sobre o segundo classificado e estabelecendo novamente o recorde mundial da maratona, com o tempo de 2 h 12 m 12 s. Para surpresa dos espectadores, após a corrida, começou a fazer exercícios de alongamento no relvado central do estádio sem parecer cansado. Por curiosidade diga-se que, na cerimónia da entrega das medalhas, os organizadores japoneses esqueceram-se de providenciar as partituras com o hino da Etiópia. A banda aproveitou a oportunidade e tocou o hino japonês quanto Bikila recebeu a sua medalha de ouro. Ainda no Japão, o Imperador Etíope ofereceu-lhe um valioso anel em oiro. Voltou de novo ao seu país como herói nacional.


Nos Jogos Olímpicos do México, Bikila foi inscrito para disputar a maratona. Simbolicamente, a organização atribuiu-lhe o dorsal nº 1. Desta vez, porém, Bikila foi obrigado a abandonar a prova aos 17 km, ressentindo-se de uma recente fractura do perónio. Foi a sua última maratona.


Em 1969, teve um grave acidente com o Volkswagen que recebera como recompensa imperial, perdendo o controlo da viatura e capotando num barranco. Ficou encarcerado durante toda a noite. Retirado com vida, depois de ter sido descoberto por um pastor, o acidente deixou-o paralítico, confinado a uma cadeira de rodas, mesmo depois de operado na Inglaterra, para onde foi transportado no avião pessoal do Imperador Hailé Selassié. Não abandonou porém o desporto, concorrendo a corridas com cadeiras de rodas e a competições de tiro ao arco.


Foi convidado oficial do COI para assistir os Jogos Olímpicos de 1972, em Munique. O vencedor da maratona, o norte-americano Frank Shorter, dirigiu-se a Bikila para o cumprimentar, sendo ambos ovacionados longamente por um público em delírio.


Abebe Bikila morreu aos 41 anos, de hemorragia cerebral, complicação neurológica decorrente do acidente de quatro anos atrás. Uma multidão de 75 mil pessoas acompanhou o enterro do seu herói e o Imperador Selassié decretou um dia de luto oficial em todo o país.

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